Eram 19 horas e já me preparava. Vesti a roupa habitual (se é que se pode designar como “roupa”). Saia de 15 centímetros, e aquele top vermelho, bastante decotado. Como era obvio não podiam faltar aquelas meias de rede pretas, que tanto fascinava os homens ( quando falo em homens, não me refiro a um só homem, mas sim , a clientes habituais).Olhos bem negros, maquilhados em três tempos , e lábios encarnados, e delineados a um vermelho mais escuro. Era este o meu estilo( comentado por umas e adorado por outros).
Sai de casa perto das 20 horas, caminhando apressadamente em direcção ao meu posto de trabalho (qualquer beco, rua, estrada, ou avenida, propicia à passagem de homens). Sozinha, acompanhada do barulho das minhas botas de 18 centimetros, dirigi-me ao local da troca. Sim troca! A minha profissão era essa…Trocar prazer por uma boa quantidade de dinheiro.
Não pensem que me orgulho da profissão que levo, mas uma coisa é certa, Pão e dinheiro para as minhas necessidades, nunca me faltou.
Hoje o dia (noite) está calmo. Por enquanto ainda só tive dois clientes, que satisfeitos ou não pelo trabalho, pagaram-me, e não foi pouco. Já há muito tempo que não tinha uma “troca” tão bem feita- tinha compensado todo o esforço.
Já me sinto cansada, e a noite está fria! Como gostava de poder voltar para casa e sentir o cheiro acolhedor do único sitio onde me sinto segura (o meu único lar). Bebia um leite quentinho, e ia para a cama.
Enquanto sonhava com algo impossível ( sossego do lar),acabou de chegar um novo cliente. Este, Não era Habitual, e nunca o tinha visto por estas “bandas”. Quem sabe se não era um cliente assíduo das minhas colegas.Fui ver… parou, abriu o vidro, e sem dizer dizer “Boa noite”, disse:
Ele: quanto levas?
Palavras fortes e pouco sensíveis, aquela hora da noite.
Eu: depende… mas isso pode ser visto depois.
Ele: Entra!
Durante todo o caminho não me dirigiu uma única palavra. A verdade é que a minha vontade de o fazer também era mínima. Chegamos! Uma casa perdida no meio do nada, rodeada de Arvores, arvores e ainda algumas arvores. Entramos, e apesar de não ser uma casa com mau aspecto, não tinha um ar muito acolhedor. Despiu-me se e deitou-me na cama(foi mais um empurrar do que um próprio “deitar”) – ainda assim não estava assustada (já estava nesta” vida” há uns anos, e já tinha visto de tudo). Durante aquele tempo não falou.Agiu!Apenas agiu! Usou-me como um objecto e quando se fartou, e a troca já tinha sido “quase feita” (ainda não tinha recebido), parou! Foi a primeira vez que me tinha sentido uma “Puta”. Nem as palavras mais obscenas e cobardes, ouvi! Não estava habituada a um comportamento deste género.
Largou-me, e deitada naquela cama imunda , com uma lágrima no canto do olho, ouvi “vou ao carro, buscar o dinheiro”. Esperei, esperei e esperei.
A sua chegada nunca mais acontecia. E sim! Aconteceu mesmo isso! Deixou-me naquela casa,sozinhas… Eu e ela… a minha lágrima.
Agora , o que me resta é ir para o local de trabalho (aquela estrada), e fazer uma nova troca, para ter boleia e dinheiro suficiente para chegar a casa.
Vida de merda, acompanhado de nadas. Cheguei a casa, e bebi aquele leite! Não me soube ao mesmo. Tinha um sabor a medos, com “raspas” de nojo. Deitei-me com esperança de que assim que acordasse, tivesse coragem suficiente para deixar esta vida! Vida de merda, e de banhos constantes , sendo a única forma de poder limpar esta pele suja e tocada por tantos.