Sentou-se e sem dizer uma única palavra, cumprimentou-a com gestos e carícias. Sem ninguém estar a espera, a pequena criança dedicava-se a passar o seu tempo de viagem, entretida a contar as pequenas, grandes rugas da senhora. O seu primeiro gesto foi tocar naquele pescoço papudo e rugoso ( a senhoria riu-se, tal como eu). Eu ri-me e tudo isso , porque recordei os meus tempos de criança , e como fazia o mesmo que esta jovem. O facto de algo ser diferente a nós mesmos, ou aos nosso próximos, intriga-nos e faz-nos querer descobrir mais e mais. Hoje perante uma situação destas, não agiria assim. No entanto a idade fantástica daquela menina, tornava-a um ser espontâneo e capaz de agir sem medos e vergonhas.
Pouco depois , tocava naquelas mãos rugosas e ásperas da senhora, dizendo “as minhas mãos não são assim!” Infelizmente não consegui ouvir a resposta, até porque até já a sua própria voz estaria velha e cansada. Imagino no entanto uma resposta do género “já vivi muito, e tu ainda tens a tua vida toda pela frente”. Aquelas rugas expeliam todos os seus medos, preocupações e vivencias. Talvez teria tido uma vida complicada e todas aquelas “imperfeições” demonstrariam o dia a dia daquela senhora. É impressionante como com um simples olhar, vimos tanto. Aquela alma parecia-me meiga, e apresentava um olhar meigo. Um olhar triste! Um olhar embebido em uma ou duas lágrimas, que provenientes de tristezas ou felicidades, me fez arrepiar. A minha pele ficou fria. O meu olhar parou… Deixei de pestanejar, e por momentos, vivi intensamente aquele olhar (velhinho, mas terno). As minhas mãos suavam e acredito que se aquela paragem fosse o meu destino, eu teria ido para bem mais longe. Queria ficar ali… ali , com aquela senhora.
Por instantes parecíamos já duas crianças em torno de algo muito valioso, que teríamos de rondar e proteger, para não perdermos. As minhas pernas tremiam, não conseguindo apresentar uma posição constante. Estava ansiosa e preocupada. Aquele olhar triste e valioso tornou-me incapaz de reagir e talvez isso fosse um sinal de como deveria fazer algo.
Agora sinto-me culpada por não me ter juntado aquelas duas pessoas, que apesar de idades tão opostas, me pareciam conhecer-se há imenso tempo. Como gostaria de ter tocado naquelas mãos e perguntado o porquê daquele olhar. A solidão em que me parecia viver, preocupava-me. Quem lhe iria dizer “Bom dia!”… quem iria acompanha-la nas varias refeições do dia? Quem iria cobri-la durante a noite, quando em pequenos momentos se descobrisse? Talvez o marido… talvez os filhos… talvez ninguém!
A pergunta a tudo isto acabou por não sair da minha boca, e tudo isto porque já não sou espontânea como aquela jovem. Deixei-me guiar pelos meus medos e vergonhas , e agora, sozinha neste café, escrevo, e penso… O meu medo agora é outro! Será que estaria tudo bem com aquela jovem de rugas e olhar triste? Isto fez-me pensar… Podemos ajudar tanto e na maioria das vezes nem uma palavra de conforto é capaz de fluir. Culpo-me!
Querem saber um segredo? Adoraria ter-me sentado no colo daquela senhora e dar-lhe um beijinho e dizer-lhe “Boa viagem”
O meu maior desejo, é que em dias de chuva e tempestade, e quando o medo for maior que a própria cama onde se deita, o meu número lhe passe em rodapé nos seus sonhos, para que possamos falar, até adormecer. (uma lágrima acabou de escorrer sobre o meu rosto, caindo sobre a folha onde escrevo este texto. Vou guardá-lo , para nunca mais me esquecer de si.
O seu nome será Maria!
