A minha expressão já era pouco “expressiva”- igual à que “usava” nas compras ou até mesmo quando falava contigo em dias de “paz”. O meu corpo já estava habituado. Os hematomas quase que já nem se viam, ou demoravam a surgir. Realmente é verdade… com a prática acabamos por ganhar resistência-assunto doloroso, mas banal para tantas como eu.
O simples facto de ter invertido o sumo em cima da mesa, enervou-te! Estavas louco, e sem dizeres uma única palavra, fizeste aquele momento de adução,que aos poucos ias aperfeiçoando e que hoje já me acertava perfeitamente, e com força suficiente para cair sobre aquele chão branco, onde tantas vezes me teria contorcido, com as dores provocadas por atitudes tuas. Apanhaste-lhe o gosto, e hoje já nem precisas daquele copo habitual de vinho, para me tocar. Parecia o teu alvo onde libertavas todas as tuas angustias, e energia acumulada. Hoje recebo estas “carícias” e aceito-as. Não compreendo, mas aceito! Faz parte do meu dia a dia,e a sua ausência por vezes assusta-me. Será que no dia seguinte, haveria novamente paz , ou seria a dobrar? Preocupava-me!
“Homem de 48 anos assassinado em própria casa, por sua esposa , de 42 anos, que usava uma arma branca. Sabe-se que guarda audiência , e espera-se que seja condenada a uns 4 anos de prisão. Esta, desculpa-se como mais uma vitima de violência doméstica. Verídico ou não, são poucos os seus apoiantes..”.
In, Jornal do Dia
É este o mundo em que vivemos- Violência em casa e injustiças no tribunal.
Ainda me lembro da jorrada de sangue ,e que ainda hoje sinto no meu corpo, de quando te apunhalei. Não queria que tivesse acontecido, mas não havia outro caminho. Os nossos teriam de se cruzar, e tu fugias de mim. Preferias morrer sufocada do que me deixares ouvir a tua respiração – era o suficiente para te encontrar. Perdi-te! Hoje pago por este crime, mas sei, que foi o melhor!Orgulho-me! Amei-te demais para te poder deixar viver sem a minha presença do teu lado. Não era egoísmo. Era amor! Amor que não esquecerei. Hoje estás num mundo melhor do que o meu- mais quente e menos doloroso (como vês tudo isto foi para o teu bem) Um dia irás perceber o quanto foi importante para nós! Um dia irás agradecer-me ! O teu sangue está seco, e parece impossível de se descolar da minha pele. A culpa foi tua (irias acabar por te habituar a este amor, e quem sabe voltarias a amar-me). Agora, estás longe de mim! Não te tenho nos meus braços! Mas sorrio porque a última pessoa a tocar-te, fui eu! Eu que tanto te amo!Não me querias na tua vida. Fizeste de mim um simples passado presente, sem esperança de ser promovido a futuro.
Para sempre teu! Miguel
Atitudes tresloucadas, provenientes de um amor. Amor estranho e pouco saudável, e que todos vimos ao virar da esquina. Amor violento mas repleto de caricias - caricias desejadas, mas nunca vividas.
Para uns doente! Para outros, “ um rapaz com amor a mais”
As nossas famílias continuam a ser contra este amor!
Será que não entendem que apesar de ser entre classes diferentes, continua igual a todos os outro? Bonito, irreal e honesto. Para eles, não passa de um amor que pode ser escondido por de trás das roupas, e que tal como os nossos ossos e músculos, com o tempo iria atrofiar. Atrofiadas são as mentes destas pessoas, que se julgam modernas, mas pouco sabem da vida. O amor é algo único e existe em todo o lado. Pode ser vivido em diferentes formas, e ter “características” diferentes… mas amor… amor… todos sabemos o que é. É um só! Algo único. Se pode ser vivido de diferentes formas, porque terá de ser vivido por pessoas de igual classe ou idade? Pergunta básica, a que não obtenho resposta (aceito sugestões).
Hoje vou-me encontrar com ele (mais uma vez às escondidas). Tenho 24 anos e Já não sou uma criança, mas sei que os meus pais eram capazes de tomar medidas extremas, pondo em causa a vida dele.
Era a sexta vez que abordávamos este assunto. No inicio parecia-me uma atitude tresloucada que não nos levaria lado algum. Não sei se foi de tanto falarmos e debatermos todos os pormenores, que acabei por me habituar à ideia, e hoje, quase que já a aceito.
Atitude bastante pensada, transparecendo pouca reflexão, mas não! Caso não tenham entendido, a solução seria , morrermos juntos.
Queria acabar com esta situação. Não aguentava mais ! Vivia um desespero absoluto ,e os meus únicos momentos de sossego e paz, seria na companhia do meu amado. Paz e sossego que seriam “abafados”pela preocupação de uma repentina chegada inesperada dos meus pais.
Temia-os! Quem sabe se esta não seria a melhor solução. Hoje teria de chegar a um veredicto.
Sim! É o melhor!
A noite passou a correr, e tudo isso porque reflecti tanto, que acabei por não chegar a fechar os olhos( Tinha medo da escuridão)… Não queria dormir! Tinha medo que assim que acordasse, esta coragem tivesse fugido com algum sonho, e hoje, teria desistido .
Eram 11 horas e encontramo-nos! Estávamos num dos locais mais bonitos que um dia teríamos descoberto. Teríamos lá passado bons momentos, e queríamos que fosse ali que tudo começasse. Sim, começasse! O nosso amor não acabaria ali! A partir de hoje, o nosso amor teria liberdade. Não teria horas a cumprir, nem qualquer outro limite.
Chegou a hora… Voltamos a fazer a pergunta “ tens a certeza?”… confirmamos, e beijamo-nos. Unimos as mãos, e sorrimos um para o outro! Estávamos nervosos, mas há muito que não nos sentíamos tão felizes como naquele instante (pum-pum… pum-pum…pum-pum…)
3, 2 , 1 … SILENCIO…
Pum- pum… Pum-pum… pum…
3 dias depois…
Sobrevivi!O Miguel morreu.
Hoje, agarrada a esta cadeira de rodas, lamento-me! Lamento-me de não ter morrido junto a ele. Mas porquê?Que destino é este que me leva à infelicidade?
Os meus pais venceram. Têm-me a mim! Mas eu não o tenho a ele…
Esta relação não teve fim… mas o meu amor também não!
Amo-te muito meu amor!
Assim que puder, juntar-me-ei a ti! Nunca irei desistir deste amor!
Hoje, mais uma vez fui visitar o meu pai. Como sempre, o que mais me custou foi ver a sua cara triste e sem paciência, com a constante presença daquela lágrima salgada no canto direito do seu olho esquerdo. Doía-me tanto vê-lo assim! A sua presença naquela casa fazia-me mal, e feliz(difícil de entender, mas é o que sinto). O egoísmo da minha parte “fala” mais alto, e a necessidade de o ter do meu lado, nos meus braços, é bem mais forte do que a vontade de o satisfazer, deixando-o seguir o seu caminho (o caminho dele seria bem diferente do meu, e era certo o meu não se cruzar com o dele) . Todos os dias se despedia de mim com um beijo salgado, coberto de lágrimas, e com a tão conhecida e frequente palavra “Ajuda-me!” . Queria ajudá-lo, mas infelizmente a minha noção de ajuda seria diferente da dele. Para o ajudar teria de lhe fazer mal. É irónica esta injustiça da vida (teria de “matar “ o meu pai para que ele pudesse “viver” feliz). Fazia-me mal, mas teria de ser forte e mostrar um sorriso na cara, porque expressão de angustia e de infelicidade, já bastaria a dele. Teria de tomar uma decisão. A lei estaria do meu lado, mas ambas não estaríamos do lado do meu pai.
Eu: Adeus Pai! Logo talvez ainda passe cá. Ele: Não precisas filha. Trata mas é da tua vida. Eu: Tu és a minha vida pai! Ele: Não fales em vida. Eu não tenho vida. Eu sou apenas um estorvo que te ocupa as manhãs. Eu: Não digas isso pai. Eu amo-te e só te quero bem Ele: Se o quisesses, acabavas mesmo agora com o meu sofrimento Eu: para isso, teria de te tirar da minha vida Ele: Não, para isso terias de acabar com a minha vida. Só me tirarias da tua, se quisesses. Eu nunca me iria esquecer de ti filha. E outra coisa de que não me esqueço, é desta enorme vontade de me matar. Eu: Adeus Pai! Ele: Ajuda-me…
Eram 19 horas e já me preparava. Vesti a roupa habitual (se é que se pode designar como “roupa”). Saia de 15 centímetros, e aqueletop vermelho, bastante decotado. Como era obvio não podiam faltar aquelas meias de rede pretas, que tantofascinava os homens ( quando falo em homens, não me refiro a um só homem,mas sim , a clientes habituais).Olhos bem negros, maquilhados em três tempos , e lábios encarnados, e delineados a um vermelho mais escuro. Era este o meu estilo( comentado por umas e adorado por outros).
Sai de casa perto das 20 horas, caminhando apressadamente em direcção ao meu posto de trabalho (qualquer beco, rua, estrada, ou avenida, propicia à passagem de homens). Sozinha, acompanhada do barulho das minhas botas de 18 centimetros, dirigi-me ao local da troca. Sim troca! A minha profissão era essa…Trocar prazer por uma boa quantidade de dinheiro.
Não pensem que me orgulho da profissão que levo, mas uma coisa é certa, Pão e dinheiro para as minhas necessidades, nunca me faltou.
Hoje o dia (noite) está calmo. Por enquanto ainda só tive dois clientes, que satisfeitos ou não pelo trabalho, pagaram-me, e não foi pouco. Já há muito tempo que não tinha uma “troca” tão bem feita- tinha compensado todo o esforço.
Já me sinto cansada, e a noite está fria! Como gostava de poder voltar para casa e sentir o cheiro acolhedor do único sitio onde me sinto segura (o meu único lar). Bebia um leite quentinho, e ia para a cama.
Enquanto sonhava com algo impossível ( sossego do lar),acabou de chegar um novo cliente. Este, Não era Habitual, e nunca o tinha visto por estas “bandas”. Quem sabe se não era um cliente assíduo das minhas colegas.Fui ver… parou, abriu o vidro, e sem dizer dizer “Boa noite”, disse:
Ele: quanto levas?
Palavras fortes e pouco sensíveis, aquela hora da noite.
Eu: depende… mas isso pode servisto depois.
Ele: Entra!
Durante todo o caminho não me dirigiu uma única palavra. A verdade é que a minha vontade de o fazer também era mínima. Chegamos! Uma casa perdida no meio do nada, rodeada de Arvores, arvores e ainda algumas arvores. Entramos, e apesar de não ser uma casa com mau aspecto, não tinha um ar muito acolhedor. Despiu-me se e deitou-me na cama(foi mais um empurrar do que um próprio “deitar”) – ainda assim não estava assustada (já estava nesta” vida” há uns anos, e já tinha visto de tudo). Durante aquele tempo não falou.Agiu!Apenas agiu! Usou-me como um objecto e quando se fartou, e a troca já tinha sido “quase feita” (ainda não tinha recebido), parou! Foi a primeira vez que me tinha sentido uma “Puta”. Nem as palavras mais obscenas e cobardes, ouvi! Não estava habituada a um comportamento deste género.
Largou-me, e deitada naquela cama imunda , com uma lágrima no canto do olho, ouvi “vou ao carro, buscar o dinheiro”. Esperei, esperei e esperei.
A sua chegada nunca mais acontecia. E sim! Aconteceu mesmo isso! Deixou-me naquela casa,sozinhas… Eu e ela… a minha lágrima.
Agora , o que me resta é ir para o local de trabalho (aquela estrada), e fazer uma nova troca, para ter boleia e dinheiro suficiente para chegar a casa.
Vida de merda, acompanhado de nadas. Cheguei a casa, e bebi aquele leite! Não me soube ao mesmo. Tinha um sabor a medos, com “raspas” de nojo. Deitei-me com esperança de que assim que acordasse, tivesse coragem suficiente para deixar esta vida! Vida de merda, e de banhos constantes , sendo a única forma de poder limpar esta pele suja e tocada por tantos.
Eram 17 horas quando voltei aquele jardim, onde inclinada sobre um arbusto da 3º arvore a contar da direita, conseguia observar aquela janela. A janela que me levava a outro mundo- Ao mundo das “obrigações”. Quando falo de obrigação não falo em deveres, mas sim do simples facto de alguém ser obrigado a algo. Hoje foi diferente! Hoje viu-o com companhia, e quando falo em companhia, não me refiro aquela terrível máquina, que para desgosto daquele homem, permanecera sempre ligada (É bom salientar que aquela máquina apenas o ajudava, não estando portanto a sua vida dependente daquele Pi, pi , pi, pi ) , mas sim uma jovem que rondava os 30 anos. De cabelos negros, e um pouco ondulados, fazia-lhe pequenas carícias. Apesar da distância a que me encontrava, percebia que tal como o suposto pai, esta, também se encontrava infeliz. De lágrima no canto do olho, beijava-o como que se o tempo que lhe restara fosse pouco, e teria de aproveitar todos os instantes possíveis para lhe demonstrar o quanto o amava. Após este momento de grande intimidade familiar, decidi ir a um café a uns metros de distância, a fim de encontrar uma resposta a tudo o que estaria a acontecer ao meu redor, e que infelizmente não teria acesso. Após uma hora e quarenta minutos de conversa com a dona daquele estabelecimento, consegui perceber um pouco desta triste história. O senhor António tivera uma acidente enquanto jovem, tendo sido atropelado por um homem que pouco sóbrio ou não, não tivera qualquer atenção à velocidade. Sofrera um grande acidente!