segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Grito-te e não me ouves. Olho-te e não me vês. Toco-te e não me sentes.

Percorro o teu cheiro e sinto-te demasiado longe.( Serão metros a mais, ou serás tu que tens um cheiro demasiado subtil? )Subtil sempre foi o teu olhar. Subtil, mas intrigante. As vezes ainda me pergunto como é possível ver o mar azul nos teus olhos castanhos. Castanhos como os teus longos cabelos ondulados - Parecem as ondas do mar que deslizam no teu olhar, e que vagueiam no meu pensamento.

Nunca te passou pela cabeça, fazer um cruzeiro, para poder substitui-te por outro alguém? Talvez esse alguém se deslocasse em Terra.


Hoje acordei e vi… vi a realidade( bem diferente da habitual)

Afinal tu ouvias-me, mas não o desejavas. Eu olhava-te, mas tu desviavas o olhar. Por mais que te tocasse, não eram as minhas mãos que sentias.

Impacto com a realidade

André

domingo, 6 de setembro de 2009

Tudo o que é novo assusta

Por mais que me tente apresentar ao desconhecido, este teima em não responder- Quem sabe se não sou eu que falo demasiado baixo.
Os meus olhos, pouco captam a sua luz -Mal me apercebo da sua beleza. Não sei que cores usa, ou que padrões prefere, mas algo sei… por vezes é tão ou mais escuro que a madrugada de uma noite de inverno.
Gostava de poder cruzar-me com ela, e dizer-lhe Adeus, com a mesma rapidez com que sou obrigada a dizer Ola. Continuaria a percorrer o meu caminho, e rapidamente me esqueceria da sua presença.
Na teoria dos meus sonhos, isto seria assim!- um breve diálogo de Ola, e Adeus. Na verdade, na realidade dos meus medos, é bem mais do que simples palavras, que se cruzam por obrigação. Hoje sou obrigada a lidar com ele (desconhecido), e meter conversa o suficiente para que possa rapidamente passar a algo “batido” – passo da vida que gostava de poder passar À frente e dizer : ”passo”.
Hoje passei por ele. Vestia ganga, e uma camisola de lâ branca, com um gorro quente branco, que lhe tapava grande parte da face - lã- gelo e frio transmitido por cada palavra declamada. O gorro, serviria para tapar o seu rosto, a fim de nunca conhecer os seus traços e poder fugir no primeiro instante. – Assim, continua a surgir no pior momento, e quando menos se espera.

Medo

Braço direito, e por vezes até esquerdo. Fala-me sempre que espirra, e quando não o faz, sussurra.

Por mais baixo que ouse falar comigo, ouço-o como se estivesse bem perto de mim, e o seu volume fosse demasiado alto para “alguém” que está tão longe.

A uns metros de distância, noto a sua presença a poucos centímetros. Encosta-se a mim, e arrepio-me. Sempre que me toca, o meu pescoço quente, sente a sua voz fria,e tremida, como que se estivesse de viagem, e a ultima teria sido no gelo de um próximo Inverno longínquo.

Ontem gritou baixinho ao ouvido - “venho para ficar”.

Mas hoje… Hoje trato-te por “Tu”.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Ouço os teus sonhos

Há pouco adormeci nos teus braços. Falamos, falamos e quando dei por ela tínha adormecido.
O teu enorme braço rodeava o meu corpo, e assim adormeci (Protegida contra a chuva e trovoada da noite) ! Hoje não choveu , nem trovejou, mas ...também não iria chover dentro do nosso quarto ne? Sim, foi assim que um dia o classificamos... "o nosso quarto"- no andar debaixo, onde quase que conseguimos ouvir o "barulho" dos bichos feios, que tens no jardim. Hoje, quase que ouvi o namoro entre aquelas duas folhas da laranjeira do teu pai...
Parece que ainda te ouço a respirar, e a sussurrar baixinho o que há pouco disseste: "ainda estás ai?" Onde querias que estivesse? O meu lugar é aí... ao teu lado!!

Obrigada por estes 3 anos, 9 meses e 20 dias =P

Amo-te muito meu amor!

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Era a minha segunda consulta com o psiquiatra

Sempre a mesma rotina.
Chegava , sentava-me, e ele pedia-me para falar. Sentada numa poltrona rija , pouco característica de um consultório psiquiatra, falava, e ele que fazia? Ouvia e escrevia… ouvia e escrevia…mas que raio...para isso, basta-me um diário, e ainda sai mais barato.
O consultório era frio, e a minha pele arrepiada mostrava-me o quão doloroso estava a ser para ela, a sua presença ali. O medico, mostrando sempre a mesma feição indiferente irritava-me- parecia que estava ausente, e a minha historia pouco ou nada lhe interessava. Estava tudo tão mecanizado que mesmo sem ouvir uma única palavra , escrevia-a , sem hesitar. Pronto, até podia ouvir, mas uma coisa era certa, a única pessoa a interioriza-la, era eu. Só eu sentia aquilo. As lágrimas escorriam, e ele nem por uma vez fez uma feição simpática e carinhosa, que alegraria só de olhar…Oferecia-me um lenço( era o único momento que em via alguma reacção da parte dele), e eu lá aceitava. Falava , falava… falava, e ele continuava a escrever.
No final da consulta, aumentava-me a dose de calmantes, ansioliticos e ainda mais algumas drogas,enviando-me depois para casa.
Eram assim os meus dias… chegava, contava uma historia de embalar, e no final pagava. Concluindo, passados os 60 minutos, ele eliminava a minha historia da sua cabeça, a fim de a preencher com a do doente seguinte, e eu? Eu regressava a casa. Aliás, nos! Eu e a minha historia …


Ps: para além de deprimida, ainda regressava a casa constipada!

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Até amanha!

Hoje, voltei a visitar-te! Às vezes pergunto-me para quê, mas acabo sempre por achar uma pergunta estúpida- afinal, estás sempre igual. Olho-te e vejo esses olhos verdes , que lamento não ter herdado, e aproximo-me de ti, beijando te a testa, e inspirando fundo, com o intuito de ainda sentir o teu perfume (o odor a hospital sempre prevaleceu, mas amanha, tentarei novamente).

Apesar de te encontrares em pré-coma , sei que me ouves, e me sentes. Falo contigo sempre que posso e toco-te para que nunca sintas falta do toque a que sempre te habituei. Pergunto-te se estas triste, e choras. Derramas essas lágrimas salgadas que me angustiam. As vezes preferia que o destino feio desta vida te levasse, para que deixasses de sentir essa dor, que acredito que sentes, e que tu tanto demonstras .Preferia que me visses partir, pois significaria, que não iria viver na tua ausência. Doava-te a minha vida, em troca desta dor que me deixaste.Lágrima salgadas e avermelhadas, com sabor a morte, e cheiro a cinzas. Queria que ficasses do meu lado, para vivenciar a tua velhice, e poder adormecer-te enquanto fazia caracóis nesses cabelos brancos, que tanto admirava. Facilmente adormecias, e facilmente eu sorria (só com a feição de felicidade com que adormecias).

Sempre foste forte, e eram poucas as coisas que te punham abaixo. Teria de vir isto. Era necessário que ocorresse uma proliferação de células a que tomos designamos por- “ a merda do cancro”, para que perdesses as forças, e caísses no antro dessa dor, feia e dolorosa que leva consigo, pessoas belas, feias, fortes e fracas, familiares e amigos. Fazes-me falta e ainda não partiste.

Parte por favor! Deixa-me só neste quarto. Prefiro que partas, e que no próximo toque estejas fria, prestes a congelar-me, sentindo uma mão fria, e rígida, em posto a essa macia com que me presenteias . Quero ver-te esbranquiçar com o tom… “Estou a ir amor! Sinto-me tão livre que quase sinto asas”.

Deixa-me mãe! Deixa-me só !

Não me deixaste. Amanha regressarei! Até lá, vou para o ninho- longe deste mundo frio que teimam em designar “hospital” e levarei comigo esta dor entranhada no meu sangue, que sempre que posso tento fintar, a fim de ambas, seguirmos caminhos opostos.


Corro! Parei. Merda! Estás de novo aqui.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Temo-me !

Merda!
Mais 14 calorias adicionadas a este pote de banhas a que vocês designam de corpo. Não entendo! A culpa foi dela, que me enervou. Andava a portar-me tão bem, e agora isto! E pior do que isto é sentir este nojento sentimento de fome - que se passa? Será que não tem fim? Já chega Rita! Pára! Queres continuar assim? E não me retribuas a pergunta “ Assim, como?”… Assim… Gorda! Que vai na tua cabeça? Olha-te ao espelho!
Detestava estes serões de diálogo com o meu inconsciente. Custava-me ouvir aquelas frias palavras, que me dirigia, mas que sabia que no fundo era para o meu bem! Teria de parar de comer desta forma compulsiva! Aliás, teria de deixar de comer (seja o que for).
Prometia-me a mim mesma, mas sabia que no fundo, não seria esse o caminho que iria tomar. Que raiva! E pronto… lá estava ela de novo :

Ela-já te olhaste o suficiente?
Eu- acho que sim!
Ela- achas que sim? Não tens a certeza?
Eu- Como posso ter a certeza disso?
Ela- Se te sentiste enojada é porque o fizeste.

A verdade é que não o tinha feito! Aliás já nem sei há quanto tempo não enfrento aquele alto espelho do corredor (sempre que lá passo , corro, perdendo toda a visão lateral a fim de não conseguir ver o monstro em que me tornei). A partir de hoje seria diferente…
À hora do jantar , a táctica era sempre a mesma- esforçava-me e servia-me com a menor quantidade de comida possível e a forma como a cortava (em pedacinhos bem pequeninos), fazia-me acreditar que era uma quantidade bastante grande- aliás tão grande que teria de me desfazer deste terrível erro.
Corria para o corredor, e fechava os olhos, com o intuito de não me ver. Entrava na casa de banho e fechava-me – abria a torneia, deixando a água correr com pressão suficiente a fim de ninguém me conseguir ouvir. Pegava na escova de dentes e com a porção final desta , colocava-a na minha pequena boca, empurrando-a o mais possível até vomitar. Por vezes, pensava em mim, no meu corpo, e no meu numero de calças e isso ajudava-me a fazer com que o vómito surgisse mais facilmente.
Depois de ter “regurgitado” este temível erro que teria cometido há instantes, sorria- sentia-me satisfeita o suficiente, e talvez mais magra.(quase que já merecia um doce de recompensa).

“Que nojo Rita, vai-te deitar!Com sorte amanha já tas mais magra, ou então mais gorda, por isso, vê lá se não sonhas com bolos”
Estava a dar em doida! O meu cabelo oleoso, e a minha cara repleta de borbulhas fazia-me sentir um mostro feio e gordo, sem plano de dieta possível. Estava destinado a ser assim. Teria de saber lidar com isso.
Choro, e deito-me mais descansada!

Não consegui! Corri em direcção à cozinha e lá estava ele à minha espera – A bola de Berlinde que sempre namorei ,e que hoje , gostava que dormisse comigo.

Até amanha! Durmam bem!
Quem sabe se hoje não terei uma nova ida à casa de banho!

sábado, 18 de julho de 2009

Menino Da Guitarra

Era ele… um pequeno imortal de cabelos claros e de voz bonita.

Acompanhado da sua amiga guitarra, fazia tremer o mundo- a cada vibração de uma só corda, fazia tremer o coração de muitos imortais como ele ( e não só). Era admirado por uns e desconhecido por outros.

Tinha um dom… cantava e tocava maravilhosamente bem, tornando-se uma força de atracção tão grande, que em poucos segundos, centenas de pássaros, se juntavam a ele e em grupo cantavam horas e horas a fio. Era assim o dia deste pequeno imortal! De calções e t-shirt laranja, abrigava-se por baixo de um carvalho, e desfrutava de toda a sombra a que esta árvore lhe podia proporcionar - Era a alegria de toda aquela vila…

Em repleto Verão, eis que surge uma nova imortal (nunca antes vista nessa pequena vila- Vila das Estrelas Azuis.) Como se era de esperar não demorou muito a juntar-se a este pequeno imortal (Menino Da Guitarra), e Em poucos dias ele e a Menina dos Olhos Negros , mal viviam separados. Cantavam, dançavam chegando mesmo a beijar-se. Inseparáveis, faziam mil e uma promessas um ao outro .

Ele - Prometes que ficas comigo para sempre?

Ela - Prometes que se for embora, corres atrás de mim?

Engraçada relação, em que nunca havia uma pergunta e uma resposta. Teimavam em responder , perguntando, ou fugindo às perguntas com uma nova música. Apesar de inseparáveis, agiam como que se não se quisessem “apegar” muito um ao outro- ambos sabiam que um dia tudo teria de acabar (destino mais do que traçado) . Amavam-se mas não faziam parte um do outro- Eram como peças de puzzle, em que faziam parte da mesma paisagem, mas por mais que tentassem , nunca se conseguiriam encaixar - estranha relação de amor, com fim pré-destinado e pouco ou nada compreendido.

Surge então o fim. Chegou Setembro, e ambos teriam de voltar às aulas (bastante diferentes das nossas ,e bem mais distantes – do outro lado da Lua , junto à estrela Mãe.)

Ele- Adeus meu amor! Sinto-me viciado em ti!

Ela- Adeus meu querido! Eu também! A culpa foi nossa!

Ele- porquê?

Ela- Não devíamos deixar que isto chegasse onde chegou. Não se poderia ter tornado um hábito!

Ele- Eu já me habituei a ti.

Ela- Adeus amor!

Ele- Prometes que me esperas do outro lado da Lua?


Foi a primeira vez que dialogaram como os mortais- perguntas e respostas.

Com o último adeus, o Menino Da Guitarra fecha os olhos, e a Menina Dos Olhos Negros parte, deixando uma mensagem na terra fértil daquele jardim:


“Procura-me! Rua do Vale Encantado, nº 1878 estrelas, esquerdo, 3530- Do outro lado da lua!”


quinta-feira, 16 de julho de 2009

Vida "deitada Fora"



Sinto-me perdida neste mundo de curvas e contracurvas, sujeita a uma constante desorientação, onde mais tarde ou mais cedo me iria acabar por perder. Agora que reflicto sobre isto,vou tarde ( estou perdida, e com défice de forças para conseguir voltar ao meu ancestral).
Olho em meu redor e pouco vejo a não ser momentos passados, perdidos por entre momentos presentes, e alguns escondidos por de trás de momentos futuros. Sim é isso mesmo! Vivo numa constante e enorme confusão! Por mais perdida que me encontre, a verdade é que permaneço neste meu quarto colorido, de cores fortes e garridas, que pouco ou nada conseguem reflectir beleza e cor, à escura vida que possuo dentro do meu corpo.
Por mais que não queira magoar os mais próximos, sei que há muito que já não sou parte integrante deste mundo(não sirvo para fazer número) . Constantes desrespeitos ao meu corpo, e sucessivos desmaios por falta de alimento (já nem alimento o corpo que me carrega).
A quantidade de endorfina libertada a cada corte que faço, já não me satisfaz. Sinto que tenho de arranjar outra solução. Carregada de pulseiras e lenços , evitando qualquer olhar alheio que pudesse notar estes hematomas, e cicatrizes, olho, e penso num novo caminho. Ali estava ele… ali… na estação ferroviária.
Esperei alguns dias (não por falta de coragem, mas por amor aos que me rodeavam). Tentei amar de uma forma que nunca teria amado, e disse “amo-te” um numero elevadíssimo de vezes em comparação ao habitual. Queria “acabar”, sabendo que pelo menos teria demonstrado todo o amor que sentia.
Era cedo ( o sol tinha acabado de chegar).
Comprei um bilhete regional para o Porto, e subi aquelas escadas( por serem enormes, ou por falta de glicose no sangue, custou-me subir). Sentei-me naqueles bancos frios de pedra, e com a colaboração do vento daquela manhã, consegui reflectir com fluidez suficiente a fim de não cometer nenhuma loucura( Teria de estar certa daquilo que iria fazer).
“Informamos a chegada do Alfa pendular com destino a Lisboa Oriente, em cerca de 3 minutos”…
Levantei-me e caminhava de um lado para o outro, derramando lágrimas de cor de café com leite, a cada 2 metros percorridos. Tinha comprado bilhete para o regional, por isso ninguém iria pensar noutra razão para a minha presença aquela hora, naquele local, a não ser a minha suposta ida para o Porto.
À medida que mirava o comboio a alta velocidade, a velocidade a que as minhas lágrimas caiam era cada vez maior. Estava assustada , prestes a entrar em colapso nervoso (mesmo assim, continuava firme na minha decisão). Tum- tum… tum-tum… tum-tum….
Assim que se aproximava do local onde me encontrava, aproximei-me da berma... Tum-tum… tum-tum… Tum… Tum… T… …(silencio)

Mariana

Ontem, dia 15 de Julho de 2011 , jovem de 24 anos suicida-se , cometendo o grande e habitual erro de muitas jovens, de se projectar para o comboio, tendo este como destino Lisboa Oriente . Sem esclarecimentos da parte da família, podemos concluir previamente que se encontra bastante fragilizada . Desde já, os nossos sentimentos.
O numero de suicídios tornar-se cada vez maior com o passar dos tempos, “crescendo “ de forma aritmética em comparação aos dias. Pergunto-me: o que vai na cabeça destes jovens , para cometer loucuras destas? Pergunta a que continuo a não obter resposta.
Apesar de não conhecer o caso, e falar sem conhecimento de causa, considero que se tratava de uma jovem fragilizada, pouco e muito sensível. Jovem dorida e sem forças para viver, mesmo acompanhada dos que mais a amavam. É necessário ter respeito por nós mesmos, e acredito que isto fosse pouco usual no casa desta menina tão jovem. Tinha a vida toda pela frente, mas as forças eram demasiado pequenas para poder lutar contra a forte maré em que talvez se encontrasse. Acção pouco justa para a família e amigos, mas de grande descanso e liberdade para a jovem em si.
Não a conhecia , mas afirmo que se tratava de uma pessoa bastante corajosa – sem coragem para viver, mas com força e coragem suficiente para terminar com aquela dor que tanto a amargurava.
Pessoa forte, por conseguir ir com esta ideia louca para a frente! É preciso ter coragem!

Os melhores cumprimentos de apoio à família.