Não sei se é ar, ou um simples nada, e que a mim, me irrita. Olho-me ao espelho e vejo-me outra! Vejo-me tumefacta e cheia de nada. Estás longe no perto. Tão perto, que te escondes por detrás desse olhar negro e baço, e que pouco irradia o meu simples toque. Vejo-te! Estás tão perto! Porque não me falas? Se és assim tão omnipresente, como um dia me prometeste, porque teimas, em fugir do pouco/tudo que te posso dar?
Quantas vezes vou ter de te pedir para te aproximares do meu toque, e ansiar para que durmas do lado do meu perfume, quando eu própria anseio sentir o teu?
E porquê? Porque tudo não passa de um perfume elaborado por mim, e que cheira a saudade!
Ainda sinto o teu cheiro a tabaco!
ps: Fazes-me tão mal, do bem que me fazes! Irritas-me !
Entraste na minha vida como uma flecha, e teimas em permanecer. Entraste de forma tão repentina, que acordei, com a corrente de ar que provocaste. Foste tão forte, que bateste com as portas, e fizeste com que janelas fechadas, se fechassem à chave.A louça caída no chão, e o meu cabelo húmido, e encaracolado, perante toda aquela revolução ambiental em que me encontrara, fez-me sorrir. Sorrir porque? Porque estragaste tudo!! Estragaste, mas voltaste!
Fizeste tanto barulho, que a ânsia, de regressares, e apareceres de mansinho, terminou num ápice. Estavas bonito como sempre!
Olhei-te e em poucos segundos, já estava unida a ti, e de olhos bem fechados, para que caso tudo não passasse de um sonho, eu não iria acordar.Concentrei-me tanto, que em poucos segundos… acordei!
A porta estava fechada, mas a janela semi-aberta, assutou-me. Levantei-me! A louça arrumada no armário, sem um único vidro no chão,fez-me correr para o espelho- Estava normal!
Afinal, não tinhas regressado! Não tornaste a minha vida num mundo de pernas para o ar, e apesar de continuares bonito, eu não te vi. Tudo não passou de um sonho, e infelizmente, acordei precocemente.
A minha única esperança é que tenhas sido tu a deixar a janela do meu quarto semi-aberta. Promete-me que da próxima vez, deitaste do meu lado, e esperas pelo pequeno almoço.
Para a próxima , parte tudo, e despenteia-me! Eu arrumarei tudo, e com um sorriso na cara!
Até lá , não passas de uma cicatriz, que teimo em esconder, mas que me marcou em tempos!
Vestia uma t-shirt branca nacarada, calças de ganga , e um boné azul publicitando a Tagus. Cabelos curtos e oleosos, delimitando aquele olhar triste e baço da senhora , acompanhado de uns óculos “fundo de garrafa”, redondos e bem graduados. Eram tão grandes, que escondiam a beleza cansada daquela senhora. Beleza para alguns e “estranho” para outros. Aparentava uma certa deficiência, ou um simples atraso que infelizmente a tornava diferente dos outros. Mas e então? Diferentes, somos todos nós! Quem é igual a mim? Quem é igual a ti? As vezes pergunto-me o porque de muitos de nós, simples humanos, que teimamos em afirmar que somos racionais ( por vezes pouco, caindo para o nulo)ainda não sabemos lidar com a diferença. Observei-a a viagem toda. Vi coisas estranhas, e outras normais e bonitas. Dentro das coisas que designamos estranhas, e que por vezes de estranho não tem nada, observava uma beleza especial- mais uma vez , diferente. Admito, o meu olhar não a largou por um instante, mas afirmo, nem por uma vez a olhei de forma diferente, e com “tom” depreciativo. Olhei-a a fim de perceber aquele mundo, e infelizmente vi… O mundo em que vivia era negro e repleto de tudo… Repleto de comentários estúpidos, e ignorantes, ditos por pessoas que se consideram maiores de idade e quem sabe de inteligência superior à média. Pessoas mal formadas, e com ritmo de vida lento, não sabendo acompanhar a diferença.
“Que bonita! Olha para ela! Miau, Miau” Enquanto miavam ao ouvido daquela senhora, eu pensava… Que pena que esta percentagem de deficientes, não tenha calhado apenas, à família de muitos destes homens. Quem sabe se não era a única forma de crescerem, e verem o quão mal, fizeram aquela senhora.
Saiu na penúltima paragem, e pensei…
Quem sabe se não era a primeira vez que fazia esta viagem. Os destinos mudam… variam. E os comentários? Os comentários são todos da mesma espécie…
Percorro o teu cheiro e sinto-te demasiado longe.( Serão metros a mais, ou serás tu que tens um cheiro demasiado subtil? )Subtil sempre foi o teu olhar. Subtil, mas intrigante. As vezes ainda me pergunto como é possível ver o mar azul nos teus olhos castanhos. Castanhos como os teus longos cabelos ondulados - Parecem as ondas do mar que deslizam no teu olhar, e que vagueiam no meu pensamento.
Nunca te passou pela cabeça, fazer um cruzeiro, para poder substitui-te por outro alguém? Talvez esse alguém se deslocasse em Terra.
Hoje acordei e vi… vi a realidade( bem diferente da habitual)
Afinal tu ouvias-me, mas não o desejavas. Eu olhava-te, mas tu desviavas o olhar. Por mais que te tocasse, não eram as minhas mãos que sentias.
Por mais que me tente apresentar ao desconhecido, este teima em não responder- Quem sabe se não sou eu que falo demasiado baixo. Os meus olhos, pouco captam a sua luz -Mal me apercebo da sua beleza. Não sei que cores usa, ou que padrões prefere, mas algo sei… por vezes é tão ou mais escuro que a madrugada de uma noite de inverno. Gostava de poder cruzar-me com ela, e dizer-lhe Adeus, com a mesma rapidez com que sou obrigada a dizer Ola. Continuaria a percorrer o meu caminho, e rapidamente me esqueceria da sua presença. Na teoria dos meus sonhos, isto seria assim!- um breve diálogo de Ola, e Adeus. Na verdade, na realidade dos meus medos, é bem mais do que simples palavras, que se cruzam por obrigação. Hoje sou obrigada a lidar com ele (desconhecido), e meter conversa o suficiente para que possa rapidamente passar a algo “batido” – passo da vida que gostava de poder passar À frente e dizer : ”passo”. Hoje passei por ele. Vestia ganga, e uma camisola de lâ branca, com um gorro quente branco, que lhe tapava grande parte da face - lã- gelo e frio transmitido por cada palavra declamada. O gorro, serviria para tapar o seu rosto, a fim de nunca conhecer os seus traços e poder fugir no primeiro instante. – Assim, continua a surgir no pior momento, e quando menos se espera.
Braço direito, e por vezes até esquerdo. Fala-me sempre que espirra, e quando não o faz, sussurra.
Por mais baixo que ouse falar comigo, ouço-o como se estivesse bem perto de mim, e o seu volume fosse demasiado alto para “alguém” que está tão longe.
A uns metros de distância, noto a sua presença a poucos centímetros. Encosta-se a mim, e arrepio-me. Sempre que me toca, o meu pescoço quente, sente a sua voz fria,etremida, como que se estivesse de viagem, e a ultima teria sido no gelo de um próximo Inverno longínquo.
Ontem gritou baixinho ao ouvido - “venho para ficar”.
Há pouco adormeci nos teus braços. Falamos, falamos e quando dei por ela tínha adormecido. O teu enorme braço rodeava o meu corpo, e assim adormeci (Protegida contra a chuva e trovoada da noite) ! Hoje não choveu , nem trovejou, mas ...também não iria chover dentro do nosso quarto ne? Sim, foi assim que um dia o classificamos... "o nosso quarto"- no andar debaixo, onde quase que conseguimos ouvir o "barulho" dos bichos feios, que tens no jardim. Hoje, quase que ouvi o namoro entre aquelas duas folhas da laranjeira do teu pai...Parece que ainda te ouço a respirar, e a sussurrar baixinho o que há pouco disseste: "ainda estás ai?" Onde querias que estivesse?O meu lugar é aí... ao teu lado!!
Sempre a mesma rotina. Chegava , sentava-me, e ele pedia-me para falar. Sentada numa poltrona rija , pouco característica de um consultório psiquiatra, falava, e ele que fazia? Ouvia e escrevia… ouvia e escrevia…mas que raio...para isso, basta-me um diário, e ainda sai mais barato. O consultório era frio, e a minha pele arrepiada mostrava-me o quão doloroso estava a ser para ela, a sua presença ali. O medico, mostrando sempre a mesma feição indiferente irritava-me- parecia que estava ausente, e a minha historia pouco ou nada lhe interessava. Estava tudo tão mecanizado que mesmo sem ouvir uma única palavra , escrevia-a , sem hesitar. Pronto, até podia ouvir, mas uma coisa era certa, a única pessoa a interioriza-la, era eu. Só eu sentia aquilo. As lágrimas escorriam, e ele nem por uma vez fez uma feição simpática e carinhosa, que alegraria só de olhar…Oferecia-me um lenço( era o único momento que em via alguma reacção da parte dele), e eu lá aceitava. Falava , falava… falava, e ele continuava a escrever. No final da consulta, aumentava-me a dose de calmantes, ansioliticos e ainda mais algumas drogas,enviando-me depois para casa. Eram assim os meus dias… chegava, contava uma historia de embalar, e no final pagava. Concluindo, passados os 60 minutos, ele eliminava a minha historia da sua cabeça, a fim de a preencher com a do doente seguinte, e eu? Eu regressava a casa. Aliás, nos! Eu e a minha historia…
Ps: para além de deprimida, ainda regressava a casa constipada!
Hoje, voltei a visitar-te! Às vezes pergunto-me para quê, mas acabo sempre por achar uma pergunta estúpida- afinal, estás sempre igual. Olho-te e vejo esses olhos verdes , que lamento não ter herdado, e aproximo-me de ti, beijando te a testa, e inspirando fundo, com o intuito de ainda sentir o teu perfume (o odor a hospital sempre prevaleceu, mas amanha, tentarei novamente).
Apesar de te encontrares em pré-coma , sei que me ouves, e me sentes. Falo contigo sempre que posso e toco-te para que nunca sintas falta do toque a que sempre te habituei. Pergunto-tese estas triste, e choras. Derramas essas lágrimas salgadas que me angustiam. As vezes preferia que o destino feio desta vida te levasse, para que deixasses de sentir essa dor, que acredito que sentes, e que tu tanto demonstras .Preferia que me visses partir, pois significaria, que não iria viver na tua ausência. Doava-te a minha vida, em troca desta dor que me deixaste.Lágrima salgadas e avermelhadas, com sabor a morte, e cheiro a cinzas. Queria que ficasses do meu lado, para vivenciar a tua velhice, e poder adormecer-te enquanto fazia caracóis nesses cabelos brancos, que tanto admirava. Facilmente adormecias, e facilmente eu sorria (só com a feição de felicidade com que adormecias).
Sempre foste forte, e eram poucas as coisas que te punham abaixo. Teria de vir isto. Era necessário que ocorresse uma proliferação de células a que tomos designamos por- “ a merda do cancro”, para que perdesses as forças, e caísses no antro dessa dor, feia e dolorosa que leva consigo, pessoas belas, feias, fortes e fracas, familiares e amigos. Fazes-me falta e ainda não partiste.
Parte por favor! Deixa-me só neste quarto. Prefiro que partas, e que no próximo toque estejas fria, prestes a congelar-me, sentindo uma mão fria, e rígida, em posto a essa macia com que me presenteias . Quero ver-te esbranquiçar com o tom… “Estou a ir amor! Sinto-me tão livre que quase sinto asas”.
Deixa-me mãe! Deixa-me só !
Não me deixaste. Amanha regressarei! Até lá, vou para o ninho- longe deste mundo frio que teimam em designar “hospital” e levarei comigo esta dor entranhada no meu sangue, que sempre que posso tento fintar, a fim de ambas, seguirmos caminhos opostos.
Merda! Mais 14 calorias adicionadas a este pote de banhas a que vocês designam de corpo. Não entendo! A culpa foi dela, que me enervou. Andava a portar-me tão bem, e agora isto! E pior do que isto é sentir este nojento sentimento de fome - que se passa? Será que não tem fim? Já chega Rita! Pára! Queres continuar assim? E não me retribuas a pergunta “ Assim, como?”… Assim… Gorda! Que vai na tua cabeça? Olha-te ao espelho! Detestava estes serões de diálogo com o meu inconsciente. Custava-me ouvir aquelas frias palavras, que me dirigia, mas que sabia que no fundo era para o meu bem! Teria de parar de comer desta forma compulsiva! Aliás, teria de deixar de comer (seja o que for). Prometia-me a mim mesma, mas sabia que no fundo, não seria esse o caminho que iria tomar. Que raiva! E pronto… lá estava ela de novo :
Ela-já te olhaste o suficiente? Eu- acho que sim! Ela- achas que sim? Não tens a certeza? Eu- Como posso ter a certeza disso? Ela- Se te sentiste enojada é porque o fizeste.
A verdade é que não o tinha feito! Aliás já nem sei há quanto tempo não enfrento aquele alto espelho do corredor (sempre que lá passo , corro, perdendo toda a visão lateral a fim de não conseguir ver o monstro em que me tornei). A partir de hoje seria diferente… À hora do jantar , a táctica era sempre a mesma- esforçava-me e servia-me com a menor quantidade de comida possível e a forma como a cortava (em pedacinhos bem pequeninos), fazia-me acreditar que era uma quantidade bastante grande- aliás tão grande que teria de me desfazer deste terrível erro. Corria para o corredor, e fechava os olhos, com o intuito de não me ver. Entrava na casa de banho e fechava-me – abria a torneia, deixando a água correr com pressão suficiente a fim de ninguém me conseguir ouvir. Pegava na escova de dentes e com a porção final desta , colocava-a na minha pequena boca, empurrando-a o mais possível até vomitar. Por vezes, pensava em mim, no meu corpo, e no meu numero de calças e isso ajudava-me a fazer com que o vómito surgisse mais facilmente. Depois de ter “regurgitado” este temível erro que teria cometido há instantes, sorria- sentia-me satisfeita o suficiente, e talvez mais magra.(quase que já merecia um doce de recompensa).
“Que nojo Rita, vai-te deitar!Com sorte amanha já tas mais magra, ou então mais gorda, por isso, vê lá se não sonhas com bolos” Estava a dar em doida! O meu cabelo oleoso, e a minha cara repleta de borbulhas fazia-me sentir um mostro feio e gordo, sem plano de dieta possível. Estava destinado a ser assim. Teria de saber lidar com isso. Choro, e deito-me mais descansada!
Não consegui! Corri em direcção à cozinha e lá estava ele à minha espera – A bola de Berlinde que sempre namorei ,e que hoje , gostava que dormisse comigo.
Até amanha! Durmam bem! Quem sabe se hoje não terei uma nova ida à casa de banho!