Arrastei-te aos meus dias, e passaste a tudo! (Que raio de ideia a minha). De um simples episódio, passas a um hábito, e desse hábito, a um vicio. É isso! Um vicio! Viciei-me em ti,e na droga que possuis no sangue, e que o torna espesso , como a parede ventricular, que por ti bate.
Es tão pouco, e esse tão pouco é bastante para mim (bastante até demais). Um dia prometeste que acabaria num instante e que bastava o “querer” para acontecer… E foi isso que aconteceu. Hoje continuo a querer, e impedir que aconteça. O teu silencio irrita-me, e o teu constante toque afoga-me! Nado no meio do nada, em que me encontro. Sinto-me estúpida ao transitar no meio de um pequeno nada, em que me deixaste. Não sabias ter deixado um gota de amor, que fosse?
Não era amor que queria. Nunca percebeste isso! Só queria ser especial, como um dia o foste, e hoje, ainda o és!
Não sei se é ar, ou um simples nada, e que a mim, me irrita. Olho-me ao espelho e vejo-me outra! Vejo-me tumefacta e cheia de nada. Estás longe no perto. Tão perto, que te escondes por detrás desse olhar negro e baço, e que pouco irradia o meu simples toque. Vejo-te! Estás tão perto! Porque não me falas? Se és assim tão omnipresente, como um dia me prometeste, porque teimas, em fugir do pouco/tudo que te posso dar?
Quantas vezes vou ter de te pedir para te aproximares do meu toque, e ansiar para que durmas do lado do meu perfume, quando eu própria anseio sentir o teu?
E porquê? Porque tudo não passa de um perfume elaborado por mim, e que cheira a saudade!
Ainda sinto o teu cheiro a tabaco!
ps: Fazes-me tão mal, do bem que me fazes! Irritas-me !
Entraste na minha vida como uma flecha, e teimas em permanecer. Entraste de forma tão repentina, que acordei, com a corrente de ar que provocaste. Foste tão forte, que bateste com as portas, e fizeste com que janelas fechadas, se fechassem à chave.A louça caída no chão, e o meu cabelo húmido, e encaracolado, perante toda aquela revolução ambiental em que me encontrara, fez-me sorrir. Sorrir porque? Porque estragaste tudo!! Estragaste, mas voltaste!
Fizeste tanto barulho, que a ânsia, de regressares, e apareceres de mansinho, terminou num ápice. Estavas bonito como sempre!
Olhei-te e em poucos segundos, já estava unida a ti, e de olhos bem fechados, para que caso tudo não passasse de um sonho, eu não iria acordar.Concentrei-me tanto, que em poucos segundos… acordei!
A porta estava fechada, mas a janela semi-aberta, assutou-me. Levantei-me! A louça arrumada no armário, sem um único vidro no chão,fez-me correr para o espelho- Estava normal!
Afinal, não tinhas regressado! Não tornaste a minha vida num mundo de pernas para o ar, e apesar de continuares bonito, eu não te vi. Tudo não passou de um sonho, e infelizmente, acordei precocemente.
A minha única esperança é que tenhas sido tu a deixar a janela do meu quarto semi-aberta. Promete-me que da próxima vez, deitaste do meu lado, e esperas pelo pequeno almoço.
Para a próxima , parte tudo, e despenteia-me! Eu arrumarei tudo, e com um sorriso na cara!
Até lá , não passas de uma cicatriz, que teimo em esconder, mas que me marcou em tempos!
Vestia uma t-shirt branca nacarada, calças de ganga , e um boné azul publicitando a Tagus. Cabelos curtos e oleosos, delimitando aquele olhar triste e baço da senhora , acompanhado de uns óculos “fundo de garrafa”, redondos e bem graduados. Eram tão grandes, que escondiam a beleza cansada daquela senhora. Beleza para alguns e “estranho” para outros. Aparentava uma certa deficiência, ou um simples atraso que infelizmente a tornava diferente dos outros. Mas e então? Diferentes, somos todos nós! Quem é igual a mim? Quem é igual a ti? As vezes pergunto-me o porque de muitos de nós, simples humanos, que teimamos em afirmar que somos racionais ( por vezes pouco, caindo para o nulo)ainda não sabemos lidar com a diferença. Observei-a a viagem toda. Vi coisas estranhas, e outras normais e bonitas. Dentro das coisas que designamos estranhas, e que por vezes de estranho não tem nada, observava uma beleza especial- mais uma vez , diferente. Admito, o meu olhar não a largou por um instante, mas afirmo, nem por uma vez a olhei de forma diferente, e com “tom” depreciativo. Olhei-a a fim de perceber aquele mundo, e infelizmente vi… O mundo em que vivia era negro e repleto de tudo… Repleto de comentários estúpidos, e ignorantes, ditos por pessoas que se consideram maiores de idade e quem sabe de inteligência superior à média. Pessoas mal formadas, e com ritmo de vida lento, não sabendo acompanhar a diferença.
“Que bonita! Olha para ela! Miau, Miau” Enquanto miavam ao ouvido daquela senhora, eu pensava… Que pena que esta percentagem de deficientes, não tenha calhado apenas, à família de muitos destes homens. Quem sabe se não era a única forma de crescerem, e verem o quão mal, fizeram aquela senhora.
Saiu na penúltima paragem, e pensei…
Quem sabe se não era a primeira vez que fazia esta viagem. Os destinos mudam… variam. E os comentários? Os comentários são todos da mesma espécie…
Percorro o teu cheiro e sinto-te demasiado longe.( Serão metros a mais, ou serás tu que tens um cheiro demasiado subtil? )Subtil sempre foi o teu olhar. Subtil, mas intrigante. As vezes ainda me pergunto como é possível ver o mar azul nos teus olhos castanhos. Castanhos como os teus longos cabelos ondulados - Parecem as ondas do mar que deslizam no teu olhar, e que vagueiam no meu pensamento.
Nunca te passou pela cabeça, fazer um cruzeiro, para poder substitui-te por outro alguém? Talvez esse alguém se deslocasse em Terra.
Hoje acordei e vi… vi a realidade( bem diferente da habitual)
Afinal tu ouvias-me, mas não o desejavas. Eu olhava-te, mas tu desviavas o olhar. Por mais que te tocasse, não eram as minhas mãos que sentias.
Por mais que me tente apresentar ao desconhecido, este teima em não responder- Quem sabe se não sou eu que falo demasiado baixo. Os meus olhos, pouco captam a sua luz -Mal me apercebo da sua beleza. Não sei que cores usa, ou que padrões prefere, mas algo sei… por vezes é tão ou mais escuro que a madrugada de uma noite de inverno. Gostava de poder cruzar-me com ela, e dizer-lhe Adeus, com a mesma rapidez com que sou obrigada a dizer Ola. Continuaria a percorrer o meu caminho, e rapidamente me esqueceria da sua presença. Na teoria dos meus sonhos, isto seria assim!- um breve diálogo de Ola, e Adeus. Na verdade, na realidade dos meus medos, é bem mais do que simples palavras, que se cruzam por obrigação. Hoje sou obrigada a lidar com ele (desconhecido), e meter conversa o suficiente para que possa rapidamente passar a algo “batido” – passo da vida que gostava de poder passar À frente e dizer : ”passo”. Hoje passei por ele. Vestia ganga, e uma camisola de lâ branca, com um gorro quente branco, que lhe tapava grande parte da face - lã- gelo e frio transmitido por cada palavra declamada. O gorro, serviria para tapar o seu rosto, a fim de nunca conhecer os seus traços e poder fugir no primeiro instante. – Assim, continua a surgir no pior momento, e quando menos se espera.
Braço direito, e por vezes até esquerdo. Fala-me sempre que espirra, e quando não o faz, sussurra.
Por mais baixo que ouse falar comigo, ouço-o como se estivesse bem perto de mim, e o seu volume fosse demasiado alto para “alguém” que está tão longe.
A uns metros de distância, noto a sua presença a poucos centímetros. Encosta-se a mim, e arrepio-me. Sempre que me toca, o meu pescoço quente, sente a sua voz fria,etremida, como que se estivesse de viagem, e a ultima teria sido no gelo de um próximo Inverno longínquo.
Ontem gritou baixinho ao ouvido - “venho para ficar”.
Há pouco adormeci nos teus braços. Falamos, falamos e quando dei por ela tínha adormecido. O teu enorme braço rodeava o meu corpo, e assim adormeci (Protegida contra a chuva e trovoada da noite) ! Hoje não choveu , nem trovejou, mas ...também não iria chover dentro do nosso quarto ne? Sim, foi assim que um dia o classificamos... "o nosso quarto"- no andar debaixo, onde quase que conseguimos ouvir o "barulho" dos bichos feios, que tens no jardim. Hoje, quase que ouvi o namoro entre aquelas duas folhas da laranjeira do teu pai...Parece que ainda te ouço a respirar, e a sussurrar baixinho o que há pouco disseste: "ainda estás ai?" Onde querias que estivesse?O meu lugar é aí... ao teu lado!!
Sempre a mesma rotina. Chegava , sentava-me, e ele pedia-me para falar. Sentada numa poltrona rija , pouco característica de um consultório psiquiatra, falava, e ele que fazia? Ouvia e escrevia… ouvia e escrevia…mas que raio...para isso, basta-me um diário, e ainda sai mais barato. O consultório era frio, e a minha pele arrepiada mostrava-me o quão doloroso estava a ser para ela, a sua presença ali. O medico, mostrando sempre a mesma feição indiferente irritava-me- parecia que estava ausente, e a minha historia pouco ou nada lhe interessava. Estava tudo tão mecanizado que mesmo sem ouvir uma única palavra , escrevia-a , sem hesitar. Pronto, até podia ouvir, mas uma coisa era certa, a única pessoa a interioriza-la, era eu. Só eu sentia aquilo. As lágrimas escorriam, e ele nem por uma vez fez uma feição simpática e carinhosa, que alegraria só de olhar…Oferecia-me um lenço( era o único momento que em via alguma reacção da parte dele), e eu lá aceitava. Falava , falava… falava, e ele continuava a escrever. No final da consulta, aumentava-me a dose de calmantes, ansioliticos e ainda mais algumas drogas,enviando-me depois para casa. Eram assim os meus dias… chegava, contava uma historia de embalar, e no final pagava. Concluindo, passados os 60 minutos, ele eliminava a minha historia da sua cabeça, a fim de a preencher com a do doente seguinte, e eu? Eu regressava a casa. Aliás, nos! Eu e a minha historia…
Ps: para além de deprimida, ainda regressava a casa constipada!
Hoje, voltei a visitar-te! Às vezes pergunto-me para quê, mas acabo sempre por achar uma pergunta estúpida- afinal, estás sempre igual. Olho-te e vejo esses olhos verdes , que lamento não ter herdado, e aproximo-me de ti, beijando te a testa, e inspirando fundo, com o intuito de ainda sentir o teu perfume (o odor a hospital sempre prevaleceu, mas amanha, tentarei novamente).
Apesar de te encontrares em pré-coma , sei que me ouves, e me sentes. Falo contigo sempre que posso e toco-te para que nunca sintas falta do toque a que sempre te habituei. Pergunto-tese estas triste, e choras. Derramas essas lágrimas salgadas que me angustiam. As vezes preferia que o destino feio desta vida te levasse, para que deixasses de sentir essa dor, que acredito que sentes, e que tu tanto demonstras .Preferia que me visses partir, pois significaria, que não iria viver na tua ausência. Doava-te a minha vida, em troca desta dor que me deixaste.Lágrima salgadas e avermelhadas, com sabor a morte, e cheiro a cinzas. Queria que ficasses do meu lado, para vivenciar a tua velhice, e poder adormecer-te enquanto fazia caracóis nesses cabelos brancos, que tanto admirava. Facilmente adormecias, e facilmente eu sorria (só com a feição de felicidade com que adormecias).
Sempre foste forte, e eram poucas as coisas que te punham abaixo. Teria de vir isto. Era necessário que ocorresse uma proliferação de células a que tomos designamos por- “ a merda do cancro”, para que perdesses as forças, e caísses no antro dessa dor, feia e dolorosa que leva consigo, pessoas belas, feias, fortes e fracas, familiares e amigos. Fazes-me falta e ainda não partiste.
Parte por favor! Deixa-me só neste quarto. Prefiro que partas, e que no próximo toque estejas fria, prestes a congelar-me, sentindo uma mão fria, e rígida, em posto a essa macia com que me presenteias . Quero ver-te esbranquiçar com o tom… “Estou a ir amor! Sinto-me tão livre que quase sinto asas”.
Deixa-me mãe! Deixa-me só !
Não me deixaste. Amanha regressarei! Até lá, vou para o ninho- longe deste mundo frio que teimam em designar “hospital” e levarei comigo esta dor entranhada no meu sangue, que sempre que posso tento fintar, a fim de ambas, seguirmos caminhos opostos.